30/mai/2017 • 11:42

“Aqui, o pensamento some”: relato do CEIP

/ por Vinícius Carossi /

Já há algum tempo, temos discutido qual é o estatuto que a música – especificamente, o funk – tem para os adolescentes do CEIP (Centro Socioeducativo de Internação Provisória), a partir da oferta de atendimento em grupo feita pelo projeto Desembola na Ideia, que é conduzida por um psicanalista e um músico. Quando dizemos “adolescentes do CEIP”, trabalhamos como se fosse uma categoria, porque se há um lugar no qual estão presentes todas as características dos adolescentes que o Desembola na Ideia espera encontrar sob a insígnia “vulnerabilidade”, que identifica seu público-alvo, esse lugar é o CEIP. É uma junção de pobreza transgeracional, extrema fragilidade social, abandono em várias instâncias e, principalmente, um deserto de insígnias simbólicas.

Nossas atividades têm sido um constante laboratório. O Desembola na Ideia parece ser uma atividade limítrofe entre o dentro e fora da instituição, por vários motivos. Somos uma instituição de fora, que fala de coisas “do mundão” e tenta, ao máximo, manter isso na proposta da música. Contudo, por estarmos em uma unidade de segurança, constantemente essa liberdade artística se choca com os limites pedagógicos introduzidos pela política do Estado. Toda a dureza estrutural de um discurso universalizante e impositivo é colocada em cheque, constantemente, quando aparece um “pedaço do mundão” nas músicas que colocamos.

Isso pode ser exemplificado por uma técnica – obviamente, criada na mais pura contingência – de samplear alguns pedaços aparentemente “inofensivos”, mas retirados de um contexto do “mundão”, como quando fazemos uma escansão, isolando um grito na música, que diz: “Ô, novinha, eu quero te ver contente”, e interrompendo o que vem a seguir (“não abandona o piru da gente”). A possibilidade metonímica – a parte pelo todo – desse exercício parece ser altamente efetiva com os adolescentes. É uma das maneiras encontradas para se ativar, por um caminho subversivamente lacaniano, as linhas de fuga deleuzianas – isto é, tudo aquilo que sai de toda a normatividade discursiva estabelecida, da totalidade – dos adolescentes.

O exercício da metonímia aparece constantemente na vida desses adolescentes “abandônicos” com os quais temos trabalhado. Parece que o mundo já não responde à metáfora. Para se ter um exercício metafórico, como nos ensina Lacan, é preciso que dois significantes possam ser representados por um só. Em termos freudianos, é chamado de condensação. Para tanto, parece que essa nova palavra criada portaria um documento de autenticação, ou uma espécie de certidão de nascimento discursiva, dizendo de onde veio, quase como uma procuração jurídica. Dizemos “quase” por saber que não há mal-entendido em uma procuração: se está lavrada em cartório e autenticada, é o que é. Pois bem, o mundo parece ter perdido seus cartórios e, principalmente, a autenticação de filiação. Um significante, hoje, raramente consegue representar um outro e sustentá-lo por associação. Se em outras épocas tínhamos uma sustentação discursiva por meio dos ideais – e da crença neles – hoje, temos uma completa aridez dessas insígnias. Nada mais esperado, em tal cenário, portanto, que uma prevalência do exercício metonímico, que ganha, em termos discursivos, mais força que o metafórico.

O eterno deslizar entre os significantes reforça a hipótese acerca das posições melancoliforme e maniforme como respostas ao desamparo1. Isso aparece, com constância, nos acolhimentos iniciais dos adolescentes no Desembola na Ideia: uma fala aparentemente organizada, porém feita com conexões esdrúxulas uma troca constante dos eixos do diálogo; uma produção em fluxo intenso, feita por vias não convencionais. Embora se possa argumentar que essas características não querem dizer nada sozinhas, o que inquestionável é que todos esses fenômenos linguajeiros valem-se da metonímia. É como se o discurso fosse um novelo de lã a ser desembolado, mas a cada ponta puxada, aparecesse outro novelo, num eterno movimento conectivo que parece não focar no novelo, mas no fio. Essa é a grande diferença entre o discurso metafórico e o metonímico.

Esse desembolar – que, também, é embolar – contém, em si, uma sustentação do tipo pendular que, em se tratando de discurso metonímico, é dado previamente. Por outro lado, há, na metonímia, uma relação de adição eterna, em função de seus deslizamentos constantes. Em outras palavras, por não haver uma espécie de “linha de chegada”, ou uma teleologia da metonímia, esse exercício tende sempre à infinitização. Essa espécie de “empuxo ao infinito” parece simbolizar a relação de nossa época com os objetos de consumo que o discurso capitalista fornece. Ou corre-se freneticamente atrás de vários objetos a todo tempo ou se é engolido pela sombra dos mesmos.

A atividade do Desembola na Ideia no CEIP é dividida, basicamente, em dois momentos. Um primeiro em que os adolescentes têm um contato direto com o MPC (aparelho que faz as batidas) e o sampler (equipamento que consegue armazenar sons de arquivos em memória digital), com possibilidade de criarem ritmos, batidas e, eventualmente, letras de músicas. O segundo tempo é dedicado à reprodução de videoclipes de “funk consciente”, a pedido deles. É o chamado “funk de cadeia”, e Minas Gerais é conhecida como seu berço. Esse gênero musical conta histórias de jovens que eram bandidos e cuja vida mudou por meio do funk.

Nesse momento os adolescentes ficam totalmente focados no que a história contada na música traz. São histórias que delineiam uma espécie de romance familiar ou uma história com função de prótese, algo de uma “mitologia da favela”. São como tragédias gregas – filho que tem um caso com a mãe e a mata; pai policial que encontra o filho traficante abandonado anos depois; irmãos que se matam em um assalto, sem saber do parentesco, etc. – marcadas pela força do Destino.

O interessante é que aqui, diferente da tragédia grega ‒ que se apresenta como espelho daquilo que foi recalcado no universo simbólico comum da neurose, isto é, tudo aquilo que teve que ser recalcado para constituição de uma sociabilidade possível, o que dava ao drama a função de catarse para a audiência grega ‒, para os adolescentes do CEIP não parece haver, necessariamente, a sensação de revelação encenada daquilo que seria o mais íntimo e recalcado, para expurgação. Identificam-se com os lugares (“quebradas”) que aparecem nos clipes, algumas insígnias de consumo reverberam para eles, mas diferente da dimensão de representação presente na tragédia, o que se nota é um reconhecimento da possibilidade real da história existir, no que podíamos detectar como um rechaço do inconsciente.

Em histórias mais complexas – como as “edipianas” – a distância emocional dos meninos é maior. Contudo, nas histórias em que aparecem traição de amigos e mortes entre irmãos há alguma comoção. Miller aponta que sempre que alguma arte nos emociona estamos no campo do inconsciente (MILLER, 2009). No campo do real, não há reverberação, por se tratar de uma pura dureza irredutível. Não há ressonância. Por isso os escritos de Joyce, como Finnegan’s Wake e Ulysses, como “escritura do real”, não emocionam. O interessante de se observar é que nas histórias de rompimentos horizontais – assassinato entre irmãos –, não se pode afirmar um retorno do recalcado. É como se fosse uma constatação: “é assim mesmo!”, afirmam alguns jovens. Como se não houvesse filtro ou recalque, nem jogo de sombras ou semblantes.

Por exemplo, em um clipe no qual um irmão mata o outro, observamos tanto uma identificação com a cena, quanto um rechaço desta, seguido de projeção do que é ruim para fora: “coisa de pilantra!”, “safado tem que morrer”. A revivência, na adolescência, desse exercício elementar da construção de um Eu, a saber, estabelecer o que é fora e o que é dentro, parece assumir proporções drásticas nos adolescentes abandônicos do CEIP. Notamos, entretanto, que ver um clipe assim, de forma assistida ‒ ou seja, com a possibilidade de intervenção simbólica por parte de quem conduz a atividade ‒, pode ter algum efeito apaziguador para os meninos. Alguns dias, demandam muito rapidamente verem os clipes ao que, costumeiramente, decorre de alguma situação que lhes angustiou, seja na atividade ou na rotina do CEIP.

Em um dos encontros no CEIP, um adolescente, após tentar rimar durante a batida construída, disparou uma frase: “ah, num dá! Aqui parece que o pensamento some!” Nesse momento, quatro outros adolescentes deslocaram-se do “transe” em que se encontravam nas repetições rítmicas, assentindo: “é, isso rola demais!” Pausamos a música e iniciamos uma conversa, por entender que ali se abria uma possibilidade de diálogo, o que é raro nesses grupos. O adolescente continuou: “aqui no CEIP, meus pensamentos parecem sumir… Aí só fica pensamento ruim!” Um outro completou: “só pensamento de morte!” O primeiro retomou: “é estranho! É como se tudo aquilo que me faz bem lá fora me fizesse mal aqui”. Localiza como “bem”, os amores e os relacionamentos, enquanto que os pensamentos “de fazer coisa errada” seriam o “mal”. Um outro acrescentou que “esquecia “ todas as letras de música” quando entrava no CEIP. Seguiram-se queixas relativas à música: “é foda porque lá fora eu ando sempre com um sonzinho ou celular, e quando preciso coloco a música que eu quero”. “Eu só consigo lembrar de algumas”. Mas conseguimos encontrar um ponto em comum entre as músicas lembradas: “Todas falam de liberdade”.

Fica claro nessas falas o quanto a dinâmica dentro-fora, como uma torção em si mesmo, um den(fora)tro2, parece ser um caminho de sobrevivência para essa selva desértica de s1-a que esses meninos vivem. A metáfora clássica freudiana sobre a adolescência como um “túnel perfurado de ambos os lados” (FREUD, 1905/1989, p.195) parece ter ressonância nesse fenômeno. Contudo, temos a sensação de que há algo de particular nessa experiência específica, dessa adolescência das favelas brasileiras, que é um pouco mais complexo do que isso.

Essa relação remete à fita de Moebius, utilizada por Lacan no Seminário da Angústia (LACAN, 2005[1962-63]). A fita de Moebius é um espaço bidimensional de variedade compacta – isto é, uma superfície – com limite. Ele é um exemplo de uma superfície não orientável. Em matemática, a orientabilidade de um espaço refere-se a não invertibilidade (como num espelho) de uma figura que percorre esse espaço. Se a figura pode voltar ao estado original invertido, o espaço diz-se não orientável, isto é, não tem frente, nem costas, diferente de uma esfera, por exemplo, que é topologicamente orientável.

Quando estamos nas atividades do Desembola na Ideia, sempre nos perguntamos o que acontece com alguns adolescentes que vão ao CEIP – um lugar identificado como “ruim pra mim” – e se sentem melhores. Seria esse rompimento com o território, com o fluxo interminável descrito acima como destino infeliz, uma possibilidade de estabelecer o mínimo de exterioridade com relação a essa torção não orientável, mesmo que da pior maneira possível? Será que a perda de algo – a liberdade – que transcende todos os registros (real, simbólico e imaginário) pode ser um caminho para bordear o simbólico – afinal de contas, só se pode simbolizar o que não se tem – e estabelecer uma diferença e uma singularidade? Um dos princípios matemáticos da fita de Moebius é que ela só tem uma borda: seria essa uma possibilidade que a atividade do Desembola na idéia pode oferecer? Uma espécie de borda, de um den(fora)tro, de um diálogo com aquilo que falta (liberdade), por uma moldura artísticas e, quem sabe, simbólica?

REFERÊNCIAS

FREUD, S. (1989) Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

_________ (1905) “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, v.VII, p.118- 230.

LACAN, J. A Angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 1962-63/2005.

MILLER, J.-A. Perspectivas sobre o seminário 23. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

1 Ver, a respeito, CAROSSI, V. “O desamparo como fundamento: ensaio sobre duas posições adolescentes no Desembola na Ideia”. Disponível em http://aic.org.br/category/desembola-na-ideia/para-ler/

2 den(fora)tro é como Eduardo de Jesus, da equipe do Desembolana Ideia, propõe que sejam feitas as intervenções artísticas do projeto na cidade.