28/jun/2017 • 14:23

Deixar-se ensinar

A enunciação de uma obra de arte produz (ou deveria produzir) um significante que interroga. Entendemos, assim, que a experiência estética é, potencialmente, capaz de modificar o lugar da enunciação do Sujeito. A produção artística busca, muitas vezes, realizar uma reflexão sobre o Imaginário, revirando-o e apontando para a dimensão do Real – o registro concebido por Jacques Lacan como aquele que está mais próximo do inconsciente. Trata-se, com a arte contemporânea, de produzir um impacto, um convite para experimentar novas posições no mundo, para “mudar o canal” da fantasia.

A arte não é espelho, não é um ponto de reforço positivo ou de sustentação de uma Cena confortável. O ponto essencial da experiência estética em um projeto como o Desembola na Ideia, mais que a produção de objetos, é exatamente deixar entrever uma “Outra Cena”, “Outra Coisa”, na qual o Sujeito esteja no horizonte. Um Sujeito na Cultura, fora dele mesmo: um íntimo, fora. Um acontecimento que advém da intervenção artística –  não necessariamente da autoria de uma obra de arte –,  dos dispositivos e torções, dos arranjos simbólicos e imaginários, que reconfiguram e subvertem, de modo deslizante, imprevisível e sem garantias, o Sujeito (Sujeito como efeito da linguagem, referido ao adolescente, ao artista e ao espectador do acontecimento artístico).

 

No Desembola na Ideia os ateliês surpreendem os adolescentes com novas possibilidades de sentidos, de significações, de lugares no mundo. Com os artistas, eles trançam cabelos na terra, comem palavras escritas em panquecas, desenham com barbante, pintam o céu, passeiam em uma cidade de papel, orientalizam o funk, dançam o passinho do erudito, trocam a arma pela rádio, lutam sem machucar, criam jardins com redes, grafitam ruínas, azulam fotos… Os adolescentes são remetentes e receptores de mensagens potentes e criativas, que os deslocam do lugar de nada, de assujeitamento, de segregação. Estão aí, em cena, Outra Cena, protagonizando novas fantasias, em uma política que leva em conta o um a um, com potência de reverberação no Outro.

Ninguém educa.  Ninguém conscientiza. Artistas, jovens e público são parceiros do acontecimento. Todos deixam-se ensinar pelo inconsciente artista.

 

 


Fotografias: Gabriela Sá