09/mai/2017 • 11:50

O lado de fora não é um limite fixo, mas uma matéria móvel, animada de movimentos peristálticos, de pregas e de dobras que constituem um lado de dentro: nada além do lado de fora, mas exatamente o lado de dentro do lado de fora.

(Gilles Deleuze)

Trabalhando em torno do que seria o “Desembola na Cidade”, ativado pela potente heterogeneidade dos integrantes do projeto, que se expressa de forma intensa nos modos de articulação das atividades e oficinas, especialmente na reunião semanal, descartamos, logo no início, a ideia de um formato mais tradicional de “Festival”, que se desdobrasse na cidade criando relações com pessoas, lugares e instituições. Mas  como, diante da questão política e social que envolve o Desembola na Ideia – jovens em situação de vulnerabilidade social e psíquica –, valorizar a necessária dimensão da visibilidade, escapando da sedutora facilidade do espetáculo midiático?

Em um gesto de resistência, ao contrário de um Festival, nosso pensamento se encaminhou, então, para uma ação contínua de difusão, mobilização, visibilidade e produção de conhecimento, orbitando nas esferas macro e micro política, ligada centralmente às potências do cotidiano e do ordinário como forma de alcançar visibilidade para esses jovens, tendo como eixo central a psicanálise lacaniana e os processos e estratégias típicos da arte contemporânea. A ideia de construir essa ação contínua, intrinsecamente ligada aos modos de operação do projeto e dentro de sua rotina cotidiana, opera como uma forma de ampliar a potência de produção de heterotopia, acionando os múltiplos territórios de encontro-interação que podem ocorrer entre real e virtual.

Assim, a proposta passa por uma forma de documentação que consiga trazer a tona o que  já foi produzido nesses meses de existência do projeto – textos, fotos, processos – como um arquivo vivo e em movimento. Junto a isso, tomamos esse gesto arquivístico como ponto de partida para as possíveis relações com as oficinas, ações, processos e gestos realizados no Desembola na Ideia. Esses dois vetores se materializam aqui, no site da AIC, como parte de um território-rede, em conexão permanente com a cidade.

Conceitualmente, dado o contexto que os adolescentes experimentam, a questão é um tensionamento entre DENTRO e FORA. Sabemos que toda a dinâmica da vida desses jovens passa por esse tensionamento, e, da mesma forma, a ação cotidiana e contínua de publicização dos conteúdos desenvolvidos no Desembola na Ideia aciona as linhas de força dessa dicotomia, o que pode fazer com que as ações desenvolvidas extrapolem o projeto e ganhem novo impulso nas documentações e postagens que vão circular pela internet. Apostamos na questão da visibilidade e da tensão entre DENTRO e FORA como dispositivos de criação de um “espaço-entre,” que visualmente ative a cidade, se desdobrando pela internet, ampliando os territórios, difundindo e circulando, para, ao alcançar visibilidade, possibilitar a visibilidade da situação de jovens e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e psíquica, que, pelas atuais formas da política e do domínio neoliberal da subjetividade, é, hoje, inexistente.

Se a postulação de Cristoph Turke – emito logo existo –, elaborada em tom de crítica, revela as estratégias de planejamento de marketing, vamos, guardadas as devidas proporções, começar a amplificar a voz desses jovens, tendo como mediação as múltiplas formas de documentação das oficinas ligadas às estratégias da arte contemporânea. Buscaremos, para isso, um modo singular e poético de desenvolver ações políticas ligadas a processos de subjetivação.