11/jun/2017 • 21:06

palavra comida

No convívio entre psicanalistas, educadores, artistas e jovens participantes do projeto, temos experienciado situações que provocam um bocado de conversas e reflexões. Boca e bocado, Joseane Jorge está lá, em meio a charutos de capeba, suspiros de jatobá, sushis de taioba, pastéis de umbigo de banana, pesto de ora-pro-nobis (um clássico do Desembola), cajá-mirim colhido no parque, refresco de folhas de pitanga, bolo azul de jenipapo e mirtilo, jabuticabas e pitombas. Tem pão de abóbora com cúrcuma e cacau, tem suco de inhame com gengibre e capim limão, tem suco de caqui com manjericão no nosso jardim comestível. Outras vezes o que apetece é arroz com feijão, frango com quiabo e angu, comida à moda de vó. A mesa é sempre cheia de cores: verde escuro/ branco e preto/marrom/laranja/vermelho/verde claro/azul/rosa.

“Vamo comer/Vamo comer canção/Vamo comer/Vamo comer poesia/Se tiver/Se não tiver então”, convida um Caetano Veloso lembrado à hora da mesa posta. “Alimente-me de utopia!”, brada nosso educador-poeta Bim Oyoko, para, em seguida, propor uma receita poética aos meninos: “tira a água/ acende o fogo/ pra quebrar o coco/ Depois, no mesmo fogo/ a panela vai chiar/ cozinhando tudo/ pra moqueca pacová”. Ao final da refeição, ficamos todos meio Vinícius de Moraes, com seu “que prazer mais um corpo pede/Após comido um tal feijão?/ ‒Evidentemente uma rede/ E uma gato para passar a mão”. Palavra e comida, descobrimos, andam juntas. João Cabral de Melo Neto já ensinava isso: “escrever é igualzinho a comer mel de engenho com farinha”.

Tem sido uma aventura artística essa nossa, de despertar novos afetos em uma cozinha experimental reinventada a cada dia, a partir dos desejos de uma turma que tem fome não só de comida… Que “quer saída para qualquer parte”, que “quer a vida como a vida quer”, como já sabiam os Titãs, esses cozinheiros de letras…

1 comentário até o momento. Junte-se à discussão.

  1. Maria Auxiliadora Cordova Christofaro Responder

    26/jun/2017 • 10:51

    (,,,,)
    Na hora de temperar
    Não para de mexer, ô
    Que é pra não embolar
    Panela no fogo, não deixa queimar
    Com qualquer dez mil réis e uma nega, ô
    Se faz um vatapá, se faz um vatapá
    E que bom vatapá…(…) Dorival Caymmin

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