17/mai/2017 • 15:55

Há um saber sobre a verdade do diagnóstico na adolescência?

/ por Musso Greco /

 

Lacan indicava dois perigos que interfeririam na avaliação diagnóstica da criança (que podemos estender a qualquer clínica): o primeiro é o de não ser suficientemente curioso; o segundo, o de compreender demais. Na clínica dos chamados novos sintomas essa orientação ganha uma nova potência. Ao verificar a ocorrência de uma debilidade da metáfora paterna e de efeitos da pregnância do gozo, que tornam a sintomatologia atual irredutível à equação válida para a direção de tratamento da neurose e de seus tipos clássicos (histeria, obsessão, fobia), nos deparamos com sintomas que não constituem metáforas. Longe da compreensão de um tradutor freudiano ou da orientação inequívoca que a clínica estrutural dava para a atuação do analista – neurose, psicose, perversão –, o diagnóstico na segunda clínica lacaniana se torna um meio de captar a singularidade sem excluí-la ou transformá-la.

O que é e qual é o interesse do diagnóstico para a psicanálise de orientação lacaniana, hoje? Como diagnosticar hoje, em um momento de ausência de padrões? As estruturas clínicas continuam a ter valor diagnóstico?

As estruturas tiveram seu valor diminuído em decorrência da multiplicação de referências identificatórias da atualidade. O Complexo de Édipo estabelecia uma relação vertical, mas tornou-se necessário inventar categorias não lineares de identificação. O diagnóstico passa a ser realizado a partir de seu sintoma ‒ da relação individual com a palavra ‒, de sua relação de inadequação com o mundo, e não com base nas estruturas clínicas prévias: como o sujeito se utiliza do seu sintoma, de que lhe serve o sintoma?

Se tomarmos como exemplo do mistério do corpo falante a puberdade ‒ momento de manifestações de uma luta relançada contra as pulsões parciais ‒. podemos, mais que nos deparar com aspectos inclassificáveis em termos de diagnóstico, questionar a própria validade de um diagnóstico estrutural. Não que uma identificação viril que venha carregada de arrogância, sadismo e agressividade não pudesse ser identificada ao modo de um sintoma obsessivo ou, no caso das moças, que os signos incontornáveis da feminilidade possam produzir tanto uma máscara feminina, quanto uma resposta masculina, na posição de um protesto em tudo coadunado ao modelo histérico… Mas isso, se apazigua, de um lado, um analista em busca de formações de um inconsciente estruturado como uma linguagem ‒ ou seja, de sintomas metaforizáveis e de efeitos de sentido induzidos pela substituição de um significante por outro ‒, deixa de fora, por outro lado, a dimensão sinthomática do falasser como uma emergência de gozo.

Como abordar estruturalmente o que seriam os sintomas da adolescência? E para que serve o Édipo em tempos nos quais o analista recebe falas espasmódicas e descontínuas, desalinhadas de um discurso, sem suposição de saber e sem perguntas? Nesses enxames de significantes imersos em gozo ‒ proferidos por quem já chega ao atendimento com um nome garimpado na internet e que, muitas vezes, ri da tentativa do analista de apontar-lhe um simples e inequívoco ato falho (“você está doido? eu não disse isso! vocês, psicanalistas, ficam querendo achar cabelo em ovo”) ‒, há como trabalhar em torno do traço unário e do sentido?

Bernardino Horne, em uma intervenção em um Seminário de Nieves Soria, em Buenos Aires (13/07/2011), esclarece que “não estamos mais, como Freud, na clínica do Outro, na qual todos os sintomas podem ser interpretados, mas na clínica do Um, na qual a manobra transferencial toma maior relevo do que a interpretação”. Tal cenário psicanalítico, de um regime discursivo não fundado na significação dada pelo Nome do Pai, permite ao analista abordar situações em que haveria uma dificuldade manifesta em instituir uma suposição de saber, solidária do conceito de recalque, pois o falasser está “em zero”, ou seja, em determinado momento o S1 pode produzir ressonâncias no corpo, abrindo um espaço novo, o da substância gozante. Se o Nome do Pai já não é a via régia para o inconsciente, podemos supor que o sujeito contemporâneo está, antes, submerso em uma constelação de significantes ‒ e não, como na metáfora freudiana, nas ruínas de uma cidade antiga, à espera de um arqueólogo ‒, cabendo ao analista contemporâneo oferecer-se para encontrar, entre esses múltiplos pontos luminosos, aqueles que marcaram o corpo do falasser de maneira privilegiada.

Fabián Schejtman, em intervenção no mesmo Seminário de Nieves Soria (24/08/2011), é convidado a pensar a relação entre sintoma e estrutura, uma vez que Lacan dizia que há tipos de sintomas que são tipos de nós, o que implicaria uma conexão entre sintoma e estrutura. Sintomas neuróticos, por exemplo, lembra ele, não têm a estrutura do retorno no real que encontramos nas psicoses, mas podemos encontrar descrições aparentemente obsessivas ou histéricas em casos sem uma amarração borromeana. Aí, ele introduz uma questão ‒ ao menos para mim, que estou, em minha prática clínica, às voltas com dificuldades fundamentais em relação ao diagnóstico de adolescentes ‒ perturbadora: “nos casos polissinthomáticos não borromeanos, os sinthomes vêm para reparar cadeias borromeanas”. Ele está se referindo, mais que a sintomas neuróticos, a sinthomes neuróticos, complexificando a distinção entre neurose e psicose, até então, como comenta Éric Laurent, em seu Lost in cognition (2014)”separadas como dois continentes distintos”, para descobrir “uma passagem pela generalização”.

Schejtman vai além, e afirma que é entre o limite do ordinário e do extraordinário que Lacan insiste em seu último ensino, mais do que no limite entre neurose e psicose, ainda que não o abandone. Lembra, para justificar esse ponto, que no Seminário 23 Lacan não se perguntava se Joyce era psicótico, mas se estava “louco”, ou seja, se delirava, se tinha desencadeado uma psicose. E propõe o termo “neurose ordinária” – evidentemente para situá-las em contraponto ao que conhecemos hoje como psicose ordinária ‒ no campo ampliado do que seriam os quadros “sinthomatizados” ou “não desencadeados”.

O tipo clínico desencadeado ‒ seja neurose ou psicose ‒ é o extraordinário, e se antes só chegavam aos analistas tais casos, hoje, com o analista-cidadão, essa demanda se ampliou, e a prática analítica pode autorizar-nos a fazer de um caso único um novo paradigma, um novo tipo de sintoma.

O adolescente anoréxico, o bulímico, o toxicômano, o hiperativo, o desatento, o deprimido, o bipolar, o que fracassa na escola, o infrator, o doente da mentalidade, o paranóico de autopunição, o que sofre de pânico, o assexuado, o poliamoroso, o transexual, o assassino, o suicida, o que se corta, o que modifica o corpo, o ameaçado de morte, o abandonado, o abusado, o excluído, o falso, o mudo… Não é preciso ser James Joyce para não desencadear. Qualquer artifício menos artístico pode manter uma psicose ou uma neurose compensada, estável: a essa solução de reparação do lapsus dos nós, Lacan chamou sinthome.