06/jun/2017 • 21:38

O corpo adolescente

/ por Musso Greco /

Para grande parte dos adolescentes, o corpo simbólico parece ser vivido como desconhecido e perturbador, e a relação desses sujeitos com seus corpos e com as suas próprias imagens revela-se fonte de inquietação, desajustamento e sofrimento, desde a sua infância. A insatisfação com a aparência do corpo se manifesta em traços particulares para os quais converge sua atenção, como o formato dos olhos e da cabeça, o tamanho do nariz ou o desenho das pernas, mas há uma insistência na queixa sobre a forma, o tamanho do corpo e o peso, “defeitos” que tentam disfarçar, pateticamente, com a sensação de serem sempre discriminados pela sua estranheza e feiura, o que os torna “diferentes”, inferiores e inadequados ao convívio com os outros.

A sensação de “diferença” testemunha um abismo em relação ao mundo dos outros, os “iguais”, aqueles cuja imagem parece coincidir com o que se esperaria encontrar, com alguma espécie de ideal suposto da forma do corpo. O início desse quadro de insatisfação corporal, na maior parte das vezes, coincide com a puberdade, permitindo então conceituar a adolescência como uma resposta do sujeito provocada pela irrupção do Real da puberdade, que se coloca para o sujeito como uma experiência de atravessamento invasora e enigmática, exemplificada nos casos em que o jovem deve assumir sua posição diante de um gozo outro em seu corpo, para o qual tem escassos recursos de falicização.

Esse encontro com o Real, além de produzir uma fixação de gozo que surpreende o sujeito, é marcado pelas necessidades de organização neurofisiológica e hormonal próprias do amadurecimento biológico, e, contemporaneamente, complicada pelas condições histórico-sociais de existência — como: o declínio da função simbólica no Ocidente, o empobrecimento da experiência compartilhada e o desenraizamento, ou seja, “não ter no mundo um lugar reconhecido e garantido pelos outros” (ARENDT, 1979, p.243-244, apud RUFFINO, 2004, online) — que dificultam o anodamento dos registros (Real, Simbólico, Imaginário) e, consequentemente, o laço social com o Outro.

O “trabalho da adolescência” pelo qual o jovem terá que passar pressupõe identificar o seu lugar de sujeito no campo das tensões relacionais e simbólicas do mundo humano (Outro social), destrinchar seu romance familiar e o enigma da filiação (Outro familiar), e responder ao enigma da sexualidade (Outro sexual). A tarefa é exigente, o que deixa o indivíduo compreensivelmente aturdido, em meio a um transbordamento de estímulos mundanos e corporais, acompanhado de pressões superegoicas de iguais proporções. O tempo lógico dessa passagem incluirá, não necessariamente nessa ordem, um instante de ver — e emudecer, siderado —, um tempo para compreender — e solicitar, a seu modo, isto é, de forma incompreensível para quase todos os demais, que lhe advenha a palavra que lhe falta para nomear o inominável de sua experiência —, e um momento para concluir — lançar-se em ato ―na aventura de se reconstruir, inventando alguma resposta inédita às exigências pós-pubertárias e, assim, seguir em direção à condição adulta‖ (RUFFINO, 2004, online).

A fantasia do romance familiar se constitui como a criação imaginativa que bordeja o furo no campo do Outro, na qual o adolescente reage ante a diferença entre sua atitude atual frente aos pais e a que teve em sua infância. A construção de saber sobre as fantasias acerca da negociação sexual entre os pais, da sedução do adulto sobre a criança e da ameaça de castração tentará dar conta do retorno das pulsões parciais, ou seja, do encontro com o sexo na sua dimensão real.

A criança deixa o Édipo com a “promessa” imaginária de que, na hora certa, lhe serão entregues os recursos para lidar com o gozo. A decepção com a descoberta de que esses recursos faltam mesmo aos pais, ou seja, de que não é possível transmitir simbolicamente um saber que dê conta do gozo, joga o adolescente em uma condição de desamparo estrutural, que poderá ser vivido pelo jovem como privação, passível de desencadear tanto revolta ou vacilação, quanto uma catástrofe emocional (COTTET, 1988, p.101), na dependência de seu “capital” subjetivo em termos de sustentação no Simbólico.

O adolescente encontrará assim a revelação de sua própria responsabilidade diante da falta do pai (tanto a impotência paterna em prover o objeto adequado à resolução da questão do desejo que restara da infância, quanto seu fracasso em sustentar a sua interdição), o que produzirá, como imperativo ético, a separação em relação à infância. Absolutamente só, o adolescente se confrontará com um lugar vazio, pois o pai, com seu nome, já não pode — e não deve — sustentar a posição de Outro, que ele terá que elaborar — e não embarcar no ideal de repará-la — para tratar a dimensão singular do desejo e produzir daí um sujeito responsável por seu gozo. Ao final, com toda a claudicância simbólica inerente ao ser adolescente, espera-se que este se desligue da autoridade dos pais — movimento que cria a oposição, fundamental para o progresso da Cultura, entre a nova e a antiga geração — e que desenvolva uma capacidade de jogar com o semblant, condição de circulação no mundo adulto, onde cada um deveria poder falar por si.

Lacan, no entanto, já advertia que a civilização contemporânea não favorece essa passagem, e previa uma perpetuação da infância, uma irresponsabilidade pelo gozo, com efeitos devastadores de segregação. Em seu texto sobre Hamlet, de 1959, Lacan situa a posição do falo após o drama edipiano, de um modo que traz esclarecimento à questão puberal. Com o Édipo e o primado da genitalidade, um dado novo se impõe no encontro com a instância real do sexo: é o falo (ainda não simbolizado) a chave do declínio do Édipo. Para Lacan, o “Édipo entra no seu declínio na medida em que o sujeito tem que fazer seu luto do falo” (LACAN, 1958-1959/1986, p.82), e os fragmentos incompletamente recalcados do Édipo reaparecem na puberdade sob a forma de sintomas neuróticos.

Dizendo de um modo lacaniano, o sujeito no Édipo tem que fazer a volta ao “campo organizado do Simbólico no qual sua exigência de amor começou a se expressar”, “a volta de sua relação ao campo do Outro”, ao final da qual se produzirá para ele a perda do falo (1958-1959/1986, p.83). Por uma exigência narcísica — que é, afinal, o que dá valor ao falo — o sujeito simbolicamente castrado passa a responder, então, à exigência desse luto com sua textura imaginária, que é do que ele dispõe narcisicamente, ou seja, sobre o plano imaginário, a falta como tal será representada sob uma forma velada 1 , -φ. Essa falta, diz Lacan, “é a reserva, o molde, a partir do qual o sujeito terá que remodelar e assumir sua posição na função genital” (1958-1959/1986, p.83).

A notação –φ, marca da castração efetivamente assumida no plano imaginário, servirá para definir o objeto a do desejo no fantasma, já que o objeto a é o que sustenta a relação do sujeito “ao que ele não é” (1958-1959/1986, p.85), o que significa dizer: ao que ele não é na medida em que não é o falo 2. O sujeito simbolicamente castrado no nível de sua posição como falante tem, assim, que “fazer o luto do que ele ofereceu em sacrifício à função do significante” (1958- 1959/1986, p.84).

Além de pensar nos sintomas neuróticos da puberdade como resíduo desse luto, vale lembrar que o sujeito adolescente vive também o luto da separação da autoridade parental, daquilo sobre o que ele se apoiou para construir uma identidade, uma certa imagem de si. E isso acompanhado de sensações e tensões no corpo, de pulsões sexuais que parasitam seus pensamentos, e de uma insuficiência de palavras para traduzir o que lhe acontece no corpo e no pensamento…

O adolescente deve, nesse contexto de privação fálica, apoiar-se na função do ideal do eu, um ponto de onde ele se veria diferente e digno de ser amado, para se sustentar na existência de uma maneira nova, e ser reconhecido “pelo acordo da fala ou pela luta de prestígio, no símbolo ou no Imaginário” (LACAN, 1953/1998, p.281). Mas uma presença maciça do luto e a concomitante rigidez do ideal do eu podem comprometer essa passagem de forma dramática, evidenciando que a produção de sintomas no corpo durante a adolescência é uma resposta ao enigma de sua localização no campo do Outro, uma demanda de reconhecimento.

O adolescente é, antes de tudo, surpreendido pelo surgimento da dimensão do corpo, e por uma perturbação do lugar de onde ele se vê. E é no corpo que um excesso de gozo, não simbolizado, irrompe como desespero, pobremente traduzido em palavras. Do lugar do Outro, na puberdade, vem uma exigência narcísica à qual o sujeito tem que atender, para dar conta do que se perdeu da infância. Mas respondendo com o Imaginário, o que se apresenta é um eu ideal estilhaçado, um “lixo”, um desvario da pulsão escópica ou uma reversão pulsional para o masoquismo. Surge também o Outro na sua dimensão intrusiva e sádica, que aponta a dificuldade adolescente em assumir uma posição sexuada, o que, mais uma vez, faz com que ele apele como saída para dispositivos imaginários e regressivos, criando ideais impossíveis e atuando sobre o corpo.

A imagem clássica aqui seria a de um barco jogado pelo mar forte, como pensou o poeta Rimbaud, o “príncipe da adolescência” — como o apelidou Paul Claudel — com seu “barco bêbado”… Rimbaud, talvez, seja um paradigma da crise adolescente, da qual o mar, como viagem iniciática, seria a configuração perfeita. Nesse poema magnífico — “Le bateau ivre” — tanto estão presentes a ruptura com o porto e com a mãe-Europa, quanto a busca de um Outro lugar, terra dos “pelesvermelhas” e das “Flóridas perdidas”, onde o jovem poeta poderia ver, enfim, “o que o homem quer ver”.

Referências bibliográficas:

COTTET, S. Estudos clínicos, Transcrição 4, Publicação da Clínica Freudiana. Salvador: Fator, 1988.

LACAN, J. (1958-1959) Hamlet por Lacan. Campinas: Editora Escuta/Liubliú Livraria Editora, 1986.

______. (1953) “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p.238-324.

RIMBAUD, A. Rimbaud livre. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1993.

RUFFINO, R. (2004) “A condição traumática da puberdade na contemporaneidade e a adolescência como sintoma social a ela articulada”, Revista de Psicanálise Textura – Online , 2004. Disponível em: http://www.revistatextura.com/leia/aconditraumatica.pdf. Acesso em: 25 jul. 2009.

1 Lacan diz que a posição do falo está sempre velada, que ele só aparece “como um relâmpago” (1958- 1959/1986, p.85). 

2 Nesse sentido, podemos dizer, com Lacan, que “o sujeito é, ele mesmo, (…) um objeto negativo” (1958-1959/1986, p.85).

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