16/mai/2017 • 23:05

O jardim comestível

A heterotopia é capaz de justapor em um único lugar real, diversos espaços, diversos lugares que são eles mesmos incompatíveis. O exemplo mais antigo da heterotopia em forma de lugares contraditórios é o jardim. Os tapete persas eram originalmente reproduções de jardins, e o jardim é um tapete onde todo o mundo completa sua perfeição simbólica. O jardim é a menor parcela do mundo e, assim, a totalidade do mundo: uma espécie de heterotopia feliz e universalizante.

O jardim do Desembola na Ideia tem a vocação de horta, uma grande e colorida horta, um jardim comestível, com folhas de taioba alternadas com repolhos ornamentais, tomatinhos  e pimenteiras, entre capuchinhas, calêndulas e amores-perfeitos; manjericão, salsinha, lavanda e camomila e rúcula, em meio a moranguinhos…cajá-manga… E bananeiras!

Após serem apresentados ao texto “As heterotopias”, de Foucault (1967), os adolescentes e a equipe foram enchendo os ouvidos da paisagista com propostas de cheiros, de matos que crescem no meio das ornamentais. Primeiro, um desenho do espaço visto de cima: a planta. Do alto da mesa constatamos um quadrado que é o nosso jardim, e os triângulos onde ficam as mesas de concreto. Desenhamos as geometrias, a ameixeira, a buganvília, os agapantos, a grama e o deck, pusemos britas sob as bananeiras, e pedrinhas de argila expandido outro canto.

Pensamos em um caramanchão que poderia receber pé de maracujá e de abóbora. Um adolescente se lembrou das uvas. Outro fez um esboço de um sistema de irrigação. Alguém sugeriu alecrim do mato. Fizemos uma lista de materiais: boca-de-lobo para a estrutura do caramanchão, cimento, makita para cortar madeiras (“porque no serrote dá muito trabalho”).

Em um dos cantos do jardim, surge uma rede (grande, elástica, convidativa): lugar da pausa, da surpresa, de recarregar, de não escutar “aquelas” vozes, de prosear. Em volta do quadrado do jardim, mil pinturas de grafiteiros. Cores que repetem as do jardim.

Distribuição de tarefas: tirar os matos, arar, adubar e preparar a terra para receber as mudas; desenhar os canteiros, visitar a horta da Conceição do Pará para escolher as mudas; plantar. Desenhos feitos pelos meninos, fotos e histórias, pesquisa das plantas, diagramas: um devir jardim. Um modo de despertar o desejo do outro (do visitante, mas também dos adolescentes e da equipe), desejo de plantar, de ver, de participar, de comer…