17/mai/2017 • 16:14

O tempo real na passagem adolescente

/ por Ângela Vorcaro e Carla Capanema /

Em sua constituição subjetiva, o ser falante efetua uma torção subversiva da condição de equivalência à posição que lhe é conferida na linguagem, chegando a sua asserção singular na condição de incomensurabilidade, ou seja, barrado, separado de sua significação. Inicialmente realiza-se como distinção, na contingência do traço que inscreve a alteridade e o separa de sua imanência vital. Incluído no jogo equívoco das permutas da linguagem, o ser se corporifica no campo pulsional, re-sublinhando a equivocidade: constata a diferença entre gozo esperado e gozo obtido e produz o efeito imaginário do fantasma que enaltece o defeito de realização, falta do Outro que sustém a insistência do desejo. O sujeito, enfim, se posiciona impedido de designar-se em equivalência, referido ao traço de sua diferença. A posição fálica em que foi inscrito na linguagem encontra o limite na negação que a barra: função do pai (Porge, 1984).

A rede simbólica que captura o neonato indica e representa o lugar de uma perda de gozo no usufruto da vida. Entretanto, é somente com esta rede que o sujeito conta para construir o saber, aparelhando-se com ela para elucubrar sobre sua perda e evocar sua significação. Nesse aparelhamento para o gozo possível, se ordena no discurso por meio de distintas modalidades de nominação.

Assim, ao viver a diacronia do nascimento até a morte, o ser falante sustenta a sincronia da estrutura desejante em que posiciona-se, a cada experiência, na reversibilidade em que retroage à fundação do inconsciente.

Há, portanto, o lapso constitutivo do sujeito que o nó borromeano de quatro elos permite escrever, efeito das repetições (iterare) sobre o itinerário da vida, desde o nascimento até a morte (Lacan 1974[1973] e 1975[1974]. A temporalidade desse lapso se distingue então na constrição das sucessivas transposições de três distintos registros, ou seja, “diz-menções” do Real (R), do Simbólico (S) e do Imaginário (I), orientadas em relação à versão paterna em que o sujeito se nomina como limite (quarto elo). Essa demarcação singular da estruturalidade implica perfurações de cada registro sobre a consistência dos demais, delimitados pelos que lhe fazem ex-sistência. Assim tensionados, os registros encurralam o ponto central da causa vazia do sujeito: alocado no exterior mais central da escrita do nó borromeano o objeto que viria satisfazer seu gozo é insensato. Não representável, tal objeto escreve o inatingível gozo a mais, localizável algebricamente por meio da atribuição de letra a, cerne do gozo, só reconhecível pelos resíduos de seu esfacelamento em objetos pulsionais.

A criança pode ser considerada consistência imaginária dada a essa lógica temporal de extração de uma estrutura subjetiva a partir da apresentação formal de uma imanência vital e de uma alteridade estruturada, que se completaria com a experiência edípica. É dessa perspectiva que Freud (1905/1989) afirma que o essencial está cumprido por volta dos cinco anos de idade.

Nem por isso, entretanto, Freud (1905) deixa de abordar a latência como tempo de adiamento para erigir a barreira do incesto (operado por exigência cultural), como fator decisivo da escolha de objetos sexuais exteriores a seus primeiros laços. Mais do que esse tempo ganho, proporcionado pelo atraso da maturação sexual, em acréscimos feitos em 1915, ele afirma literalmente o que permite localizar o caráter bifásico da sexualidade, nos “dois tempos da escolha de objeto”:

O seguinte processo pode reclamar o nome de típico: a escolha de objeto se realiza em dois tempos, em duas ondas. a primeira se inicia entre 2 e 5 anos e o período de latência a detém ou a faz retroceder: se caracteriza pelas natureza infantil de suas metas sexuais. A segunda sobrevém com a puberdade e determina a conformação definitiva da vida sexual.[…] a eleição de objeto da época da puberdade tem que renunciar aos objetos infantis e começar de novo como corrente sensual” (Freud, 1905/1989, p. 206)

Essa renúncia dos objetos infantis e a nova eleição de objeto na puberdade implica um hiato entre criança e adulto que não deve ser negligenciado. Esse abismo constitui acontecimento ou desastre da estrutura, necessitando ser abordado.

Entre criança e adulto, opera-se a transposição da masturbação para a realização do ato sexual, passagem da latência que implica a especificidade do tempo para compreender a castração. Esse tempo, chamado por Freud de latência, exige a consideração de sua incidência como presença do real na estrutura que traz uma lógica que não prescinde da diacronia. Com os termos que sublinhamos anteriormente, o itinerário da viagem da vida produz função de corte, incidindo doravante como iteração sincrônica. Por isso podemos abordar o real do tempo que franqueia a adolescência.

Freud introduziu, nos Três Ensaios Sobre a Teoria Sexual (1905/1989) o que até hoje se mantém como ponto de impasse entre os adeptos da concepção de sincronia da estrutura do sujeito. Assim se expressou Jacques-Alain Miller (1992) ao se referir ao significante criança: “[…] Há uma definição de criança: é o sujeito cuja libido não se deslocou dos objetos primários. […] na libido não é indiferente o fator temporal” (pp. 9-10). Ou seja, o deslocamento dos objetos primários interroga os percalços da temporalidade real sobre a condição estrutural da subjetivação.

Na infância, a criança é inscrita primeiramente como objeto do Outro. Dessa perspectiva, como diz Nominé (1999), ela é um brinquedo erótico para os pais e ela goza dessa posição em que é colocada, mas não detém nenhum saber articulado sobre o gozo nesse lugar em que é posicionada. É o que franqueia a afirmação de que a sexualidade infantil é polimorfa, por desconhecer a finalidade e as modalidades da reprodução sexual. Não tem acesso nem ao ato sexual nem ao ato discursivo porque, por um lado, a despeito da exigência pulsional, sua condição orgânica impõe uma impossibilidade de realização. Por outro lado, apesar da exigência do laço social de que fale, sua fala não tem estatuto jurídico, seu estatuto discursivo não é reconhecido.

Se a criança goza na infância, é sem domínio do saber sobre o gozo e é o que permite a construção fantasmática em que, a despeito de responder a uma falta do grande Outro, a criança não tem domínio do seu ato. A sexualidade adulta supõe o encontro com o outro sexo e o saber sobre a procriação, condição de saber sobre o gozo que implicará, no sujeito, a responsabilidade sobre seu ato.

Entre a sexualidade infantil e a sexualidade adulta, a sexualidade infantil é abandonada, esquecida. Nesse período de latência, o sujeito trabalha sua inclusão no campo do saber, condição estrutural necessária à separação entre gozo e saber, é o tempo para compreender a castração a que todo sujeito está submetido. Nesse tempo, a criança procura os meios de responder à existência da falta de saber do grande Outro, para descobrir uma posição em que possa situar um saber em relação à alteridade.

Assim, a aquisição de conhecimento operada pelo discurso social, conduz a criança a deslocar-se de um gozo auto-erótico para enlaçar-se nas modalidades de gozo que o campo social ordena, por meio do aparelhamento que a linguagem produz. O sujeito sai assim da posição infantil em que é objeto de um Outro para construir seu próprio mito em que o grande Outro é não-todo, por meio das articulações e hiâncias significantes que o tesouro cultural lhe oferece. É o que permitiria ao sujeito adolescente estabelecer as condições de gozo, e portanto, poder assumir a responsabilidade por seus atos. Assim a adolescência pode ser concebida como um momento de passagem estrutural em que o sujeito olha por trás de seu período de latência para elucubrar sobre o gozo perdido na infância, aparelhando-se, em certa medida, para os limites do gozo no encontro com o outro sexo. Olhar por trás da latência permite confrontar-se à desmontagem da promessa edípica construindo uma outra versão de sua realização (Vorcaro & Capanema, 2011).

Não é difícil constatar condições restritivas que apontam a supressão do período de latência, em condições que produzem desastres que jogam as crianças à deriva pulsional, impossibilitadas que ficam de fazer laços com os semelhantes que agenciam o grande Outro. É o caso de crianças que, no período de latência, são jogadas num funcionamento que as obriga a funcionar no registro do adulto, antes que uma exigência pulsional as confronte ao outro sexo. Assim, a criança exposta a rua, a criança atacada sexualmente e a criança trabalhadora são violentadas e atingidas no real de seu corpo. Antes que possa reorganizar sua construção fantasmática elas são intimadas a fazer. Em vez de municiar suas fantasias, fazem atos.

Ao dizer “é um assalto, me dá o dinheiro senão te corto a cara” especularizam o assalto temporal sofrido e recebem como resposta o medo, o horror e a submissão já vividos por elas. Sua fala ganha reconhecimento social, é ordenadora do laço em que elas supõem ter o domínio, fazendo a lei insensata do vale tudo, em que assume não ter mais nada a perder. Nessa posição perversa, sua palavra não é engajada no brincar de bandido, mas faz ato, na medida em que seu dizer tem reconhecimento devido ao perigo de desamparo a que submete o outro. A violação da latência que convoca crianças a responder antes que detenham um saber, as institui num lugar de poder que lhe é conferido, onde, a despeito do real de sua constrição orgânica, seus corpos realizam qualquer ato, porque já foram antecipados: as crianças vão responder não com a palavra, mas com seu corpo.

Também as crianças surdas, sem acesso ao diagnóstico e ao tratamento na infância, são mantidas na condição de débil. Muitas sem escolaridade alguma, outras vezes em escolas não habilitadas, são expostas a uma restrição da língua a tal ponto que apenas alguns gestos indicativos são sistematizados por seus pares que lêem estes gestos em signos biunívocos. Depois de passarem toda sua latência na posição de objeto do gozo do Outro, sem acesso a meios para aparelhar-se com algum saber, são enfim, na adolescência, expostas a língua de sinais. Descobrem uma possibilidade inédita de circulação na língua, de encontros, de saber. Enfim, aparelham-se com uma língua. Nesse momento, entretanto, seu corpo está organicamente constituído, está acossado pela urgência das pulsões e pela necessidade de realização. Seu corpo não lhe impõe qualquer limite, qualquer ato pode ser experimentado sem nenhuma elaboração. É ao mesmo tempo em que passam a falar com o corpo, pela língua de sinais, que podem também fazer qualquer ato. Falar e fazer são facilmente equivalentes, transparentes, sem mudança de registro de um para o outro, sem leitura de um sobre o outro.

Os surdos, ao se disporem da língua de sinais, e as crianças assaltadas da latência, dificilmente mantém-se submissos a pais que não falam a língua daqueles. Quando adolescentes são jogados, sem intermediação, em outros laços, onde suas referências parentais nada valem, pois efetivamente falam línguas estrangeiras a ambos. Morte, gravidez, roubos e delinqüência em todos os seus âmbitos podem ser pressagiados nos dois casos.

Nessas duas situações, enfim – a primeira, dos meninos de rua, em que a adolescência é antecipada, suprimindo a latência, por violação, e a segunda, dos surdos, em que a latência é postergada à adolescência, em que a condição real do organismo produz a urgência de realização que impede o tempo de elaboração da castração – encontramos a condição social incidindo na estruturação do sujeito: antecipação da adolescência ou adiamento da infância.

Esses modos de supressão da latência mostram o limite do corpo – seja por sua restrição de tamanho, habilidade e força, ou ainda por sua imaturidade sexual – como constrição necessária à elaboração da castração, que faz o adiamento do ato uma condição estrutural do cálculo subjetivo. Tais desastres na latência evidenciam a medida com que o real do organismo latente pode determinar a possibilidade da construção psíquica.

As amarrações entre o Real, o Simbólico e o Imaginário na adolescência nos permitem estabelecer a hipótese da passagem da criança ao adulto, desde a latência até a experiência adolescente, configurar o estabelecimento de um quarto elo no nó borromeano, distinguido por Lacan no Seminário 22: R. S. I. (1975[1974]) como nominação.

Na adolescência, há constrangimentos de grande monta nos três registros, do Real, do Simbólico e do Imaginário, conforme Rassial (1999) esclarece. A ocorrência da puberdade fisiológica marca a presença do Real no corpo, implicando na transformação que extrapola a imagem previamente concebida, jogando o sujeito desamparado no mundo. Por outro lado, a criança, até então sustentada na promessa de que, ao preço de uma renúncia provisória, teria acesso ao verdadeiro gozo, depara-se com o fato de que, embora possa ter acesso à genitalidade, o objeto de seu desejo e o Outro não são reconciliados no ato sexual: o gozo sexual é parcial e o Real do fracasso o espreita.

Também em nível Imaginário, o adolescente terá que lidar com a impotência, reconstituindo um novo desenvolvimento imaginário que sustente a imagem do corpo e a consistência do Outro, por meio de uma redistribuição do mundo objetal, para que o sujeito não caia no Real. Entretanto, para dar sentido à vida é preciso pagar o preço de um dano irreparável à imagem infantil do corpo. A ênfase na genitalidade leva o adolescente a dar ao Outro a consistência imaginária do Outro sexo. Entretanto, o Outro se configura sobre três avatares, na adolescência, seja ao voltar-se ao Outro do Outro (os pais dos pais, a tia, a genealogia e a história da família); seja atribuindo uma nova função de Deus, que garantiria esse lugar Outro (arrebatamentos místicos e religiões); seja na consideração da consistência da sociedade: atraente e ameaçadora, visada e rechaçada, numa direção política como engajamento utopista, mesmo que o mais tarde, o alhures, ainda desempenhem seu papel de sutura na utopia. Imaginariamente o adolescente deve integrar os infinitos com os quais se defronta, devido à constatação da fragilidade dos alicerces que ordenavam para a criança. A consistência do Outro é exigida: mais solidez que os pais e capacidade de integrar a medida do infinito.

No que diz respeito ao registro Simbólico, o sujeito passa da extensão mínima da cadeia simbólica à sua extensão máxima, pela mudança de posição na cadeia de gerações que o localiza como virtualmente pai. Constata-se, ainda, que o microcosmo familiar não é fundador e que o laço social exige outra formulação (fundando o interesse pelas teorias, sistemas e a ideologia, denunciando as incoerências contradições internas do discurso ou contradições entre o dizer e o fazer).

Assim, o significante se confessa enganador e o simbólico frágil. A ordem dos significantes é abalada. O nome que representa o sujeito é também posto em questão (daí as manifestações de apelidos, gírias, até o mutismo), pondo a prova o simbólico, interrogando o que quer dizer falar ou de modo performativo (juramentos, declarações de amor). Por outro lado, o significante mestre relativo à submissão ao adulto, por meio da ordem parental, não mais garante a identidade e o desejo escapa dessa captação; Também o significante fálico não garante uma relação válida com o outro sexo. Será preciso fundar a intersubjetividade aquém ou além deste significante. O Nome do Pai não é mais sustentado pela relação familiar, vai ter que ser validado destacado do pai da realidade e de todo pai imaginário, podendo então se escrever no plural.

A operação, que se efetua na adolescência, abre uma nova temporalidade. Ela nos conduz a situar um tempo lógico de nominação, que não mais se limita à apropriação do sintoma sexual e a confirmação de que o Outro nada garante. Assim constata-se a incidência do “tempo real” na adolescência, tempo singular para a construção de uma nominação que estabiliza o nó borromeano. Para além da sincronia de estrutura, a presença do quarto elo como nominação supõe a diacronia de acontecimentos constituintes do sujeito (Capanema, 2015). Acolher os adolescentes em um dispositivo discursivo é a aposta de que um acontecimento possa ser transformado, pelo efeito do discurso, em uma invenção própria de cada sujeito.

Referências:

Capanema, C. A. (2015). A contingência da paternidade como forma de amarração do quarto elo do nó borromeano na adolescência. (Tese de Doutorado), Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil.

Freud, S. (1989). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad.), Vol. 7, pp. 118-238. Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho de 1905).

Lacan, J. (1974[1973]). Seminário 21: Le non-dupes errent. Inédito.

_____ (1975[1974]). Seminário 22: R.S.I. Inédito.

Miller, J.-A. (1992). Apertura de las II Jornadas Nacionales: Desarollo y estructura em ladirectión de la cura. Buenos Aires, Argentina: Centro Pequeno Hans.

Nominé, B. (1999). Conferência realizada em São Paulo, citado por Vorcaro, A. M. R. (1999).Transferência e interpretação na clínica com crianças autistas e psicóticas. Disponível em <www.revistas.usp.br/estic/article/view/60767#>.

Porge, E. (1994). Psicanálise e tempo. Rio de Janeiro, RJ: Campo Matêmico.

Rassial, J.-J. (1999). O adolescente e o psicanalista. Rio de Janeiro, RJ: Companhia de Freud.

Vorcaro, A. & Capanema, C. (2011). Chicanas da travessia adolescente. Psicologia em

Revista, v. 17, n.1, pp.82-99. Disponível em http://periodicos.pucminas.br/index.php/psicologiaemrevista/article/view/P.1678-9563.2011v17n1p82. Acessado em 14/09/2016.