Não é de hoje que trabalhamos junto às juventudes periféricas e traçamos estratégias de mobilização desse público, buscando sempre valorizar seu potencial e fomentar seu protagonismo em ações transformadoras. Nesse sentido, uma experiência recente se destaca: o programa Comunicação Solidária, realizado nas edições Cidadania Criativa, em 2019 e 2020, e Protagonismo Juvenil em Ação, em 2021, com foco na fotografia, no audiovisual e nas artes gráficas. 

Ao longo dos anos, o programa formou 14 turmas de adolescentes e jovens de várias quebradas de BH, mantendo-se em um constante movimento de reinvenção, diante circunstâncias tão desafiadoras quanto a pandemia. Não é de se admirar que esse amplo processo formativo tenha gerado inúmeros aprendizados.  

Cientes de que compartilhar é preciso, sistematizamos esses saberes por meio de materiais recém-saídos do forno: a série de vídeos Fala, jovem!, com egressos dos cursos, e um caderno sobre nossas metodologias. Aqui, selecionamos algumas das dicas colhidas nossa jornada, a fim de inspirar outras iniciativas direcionadas a adolescentes e jovens.

Arthur Quadra e Helio Samuel, ex-alunos do Comunicação Solidária, falam sobre a importância de criar coletivamente e mostram como criar um estúdio audiovisual caseiro com poucos recursos.

1. Mobilização em parceria com escolas e iniciativas comunitários 

Escolas, espaços culturais e grupos comunitários em geral podem ser aliados preciosos para chegar ao público da atividade formativa oferecida. Ainda que não atuem diretamente com jovens, esses espaços e iniciativas têm capilaridade nos territórios e grande potencial de mobilização, fomentando o sentimento de pertencimento. 

Isso não significa, porém, que a experiência com esses parceiros é sempre igual. Entre alunos mobilizados por escolas da rede pública e aqueles que aderem por meio de grupos locais, por exemplo, mudam os níveis de engajamento e evasão, as demandas e até mesmo as perspectivas de continuidade do projeto. 

2. Pactuando o funcionamento: os combinados 

Qualquer trabalho coletivo requer que objetivos, expectativas e regras simples sejam alinhados desde o princípio – e repactuados ao longo do processo, conforme a necessidade. Dessa forma, é importante que os combinados sobre respeito entre participantes, organização do espaço, entregas e outras questões os sejam feitos logo na abertura das atividades. 

No ambiente virtual não é diferente. Mesmo no WhatsApp, é necessário traçar acordos sobre o funcionamento dos grupos, tais como manter o foco nos assuntos tratados, sem distrações ou fake news, e ter atenção redobrada para mensagens discriminatórias ou contrárias aos direitos humanos. Isso garante que os chats tenham um bom funcionamento, deixando todas e todos seguros e confortáveis. 

3. Idade faz diferença 

Para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), está na adolescência quem tem entre 12 e 18 anos. Mas é claro que, dentro dessa faixa etária, adolescentes apresentam demandas, níveis de amadurecimento e questões de interesse diferentes, segundo sua idade. Entre jovens, então, nem se fala – essa parcela da população se estende dos 15 aos 29 anos. 

As diferenças impactam nas formações e atividades propostas. Por exemplo, conseguimos trabalhar numa mesma linguagem com adolescentes de 12 a 15 anos. Já com quem tem de 16 a 18 anos, vemos a necessidade de mudar a abordagem. 

Diante disso, é necessário criar estratégias para direcionar os desafios para cada faixa etária. É possível dividir a rapaziada em turmas? Ótimo! Se não, vale criar propostas e demandas específicas para cada grupo, dentro de uma mesma turma. 

4. Com quem construir: educadores locais e profissionais convidados 

Atividade ministrada pelo artista e educador Saulo Pico no projeto Cidadania Criativa.

Traçar parcerias com educadores que atuam nos territórios pode ser um grande trunfo para iniciativas que se destinam a uma região específica. Isso porque esses agentes conhecem a fundo os dilemas e especificidades da comunidade, além de serem figuras com as quais os próprios jovens podem se identificar, gerando mais engajamento nas atividades e proposições. 

É possível, ainda, que a educadora ou educador local siga sendo uma referência para quem participa da formação após o encerramento do curso. Ao ser a pessoa que indica e orienta sobre trabalho, escola, movimentos culturais e outros temas de interesse dos jovens, ela continua o legado do projeto na localidade. 

No entanto, dependendo do desenho da formação, a figura do educador local não faz sentido. Foi o caso do Protagonismo Juvenil em Ação, que aconteceu em modo remoto e não se restringiu a um único território. Nessa modalidade, uma alternativa encontrada foi abrir espaço para convidadas e convidados especiais, propiciando momentos de troca dos jovens com profissionais e artistas. Nesses momentos, além de tirar dúvidas sobre as técnicas, as turmas têm a oportunidade de entender melhor o mercado de trabalho e enxergar a arte como caminho profissional possível. 

5. A importância do projeto final 

Propor que a turma crie e execute um projeto do início ao fim do curso é um gesto mobilizador e que gera muito aprendizado. Ainda que tenham esse desejo, não é raro que jovens nunca tenham tido a experiência de planejar e desenvolver um projeto próprio.  

Os ganhos são muitos: as e os adolescentes passam a ter uma compreensão mais ampla sobre as diferentes etapas do processo, aprendem a dialogar e conciliar interesses e compreendem, na prática, a importância da corresponsabilidade e da participação ativa em iniciativas coletivas. 

É sempre importante que as ideias para o projeto final partam das juventudes, com base nos assuntos que lhes despertam interesse. Também se recomenda que o tema escolhido se conecte a uma causa de interesse público – ou seja, que o projeto final seja endereçado a problemas que afetam a coletividade, segundo a percepção dos jovens. 

Curtiu o conteúdo? Para saber mais, acesse e baixe o caderno Comunicação Solidária: aprendizados metodológicos com a juventude de Belo Horizonte.