O agente de estação Celso Dias, o Celsinho, circulava bem humorado entre os vagões, a plataforma e a chefia da estação ferroviária de Matozinhos, fazendo a ponte entre o público, o administrativo, maquinistas e chefes. Levava a família para o trabalho sempre que podia e até hoje é lembrado quando o assunto é a parada local do trem.

Verdadeira agitadora cultural de Matozinhos, Neide Pereira foi responsável pelas principais festas da cidade, levando para lá, na segunda metade do século passado, diversas bandas e artistas, a maioria de trem. Trabalhava nos Correios, era moradora do bairro da Estação, frequentemente se vestia de Carmen Miranda e nunca quis se casar.

Celso Dias e Neide Pereira são alguns dos personagens-anfitriões que conduzem a narrativa de duas paradas – ou salas – da Estação de Memórias de Matozinhos (MG), espaço de registro e difusão da memória ferroviária local produzido através do programa homônimo, realizado pela AIC em parceria e com patrocínio da VLI Valor da Logística Integrada.

Além de Matozinhos, o projeto tem parada também na charmosa Estação Ferroviária de Cachoeira, na Bahia. Inaugurada em 1876, no Recôncavo Baiano, ela foi e segue sendo motivo de orgulho para todo o povo cachoeirense e integra o grande patrimônio arquitetônico e paisagístico do município. Muito mais do que um meio de transporte, a Estação de Cachoeira abriga histórias, romances e gosto de taboca, munguza e o rolete de cana espetado no palito.

Através da construção de espaços de memória, o Estação de Memórias contribui para a preservação dos patrimônios históricos, artísticos e documentais relacionados à implantação das ferrovias no Brasil, muitas delas hoje desativadas. Além dessas duas edições, em 2019, o programa percorreu a estação ferroviária Bernardo Monteiro, em Contagem (MG).

Locais de encontro, movimento e espera, as estações de trem têm muita história para contar. A fim de tecer essas narrativas, a construção dos espaços pelo Estação de Memórias parte da pesquisa, da mobilização do território e do mapeamento de referências. São realizados, então, processos colaborativos de produção e circulação de memórias, como as rodas de histórias online promovidas junto às comunidades locais e a gravação de entrevistas. Do caldo de relatos de moradores e agentes culturais, surgem as inspirações para transformar as estações em espaços de exposição. 

Em Matozinhos, elementos tecnológicos, objetos manuais de antigos ferroviários, marcos históricos, causos e diferentes temporalidades e tradições se mesclam para criar três paradas – A Cidade, A Estação e Memórias e Afetos -, as quais mostram uma história multifacetada que se atualiza no presente. A palavra “parada”, por vezes usada como sinônimo das estações ferroviárias, é também um convite para um lugar onde o corpo que se move pelo espaço, ao modo do próprio trem, pode esperar algo a mais: aprender, interagir e sentir.

Em Cachoeira, uma longa linha do tempo guia os visitantes pela história dos trilhos na região do Recôncavo Baiano. A estação bebe de referências tão emblemáticas quanto diversas para dizer sobre a história local, as memórias e afetividades que a atravessam: vai desde as fachadas das casas até placas antigas, passando pelas texturas que marcam as paisagens da cidade.

Além do projeto expográfico, com a produção de peças adesivas e totens expositores para as salas, o Estação de Memórias ainda inclui a produção de pílulas videográficas com depoimentos e o lançamento de página multimídia. Os lançamentos das estações de Matozinhos e Cachoeira estão previstos para dezembro – e podem, quem sabe, dar origem a memórias tão gostosas como rolete de cana espetado no palito e personagens tão marcantes quanto Celsinho e Neide Pereira.

Esta edição do projeto Estação de Memórias é executada pela Agência de Iniciativas Cidadãs, patrocinado pela VLI Valor da Logística Integrada e realizado com recursos da Lei de Incentivo à Cultura da Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.