O celular acende com a chegada de uma notificação no WhatsApp. A mensagem, enviada em um grupo por uma pessoa de confiança, diz que o governo recebe recursos a cada óbito por Covid-19, uma fake news amplamente disseminada nas redes sociais em meados de 2020. 

Ângela foi uma das muitas pessoas que acreditaram naquela notícia falsa. Apesar de diversos jornais e agências de checagem terem desmentido a informação, foi através das piadas do projeto De Falsa Já Basta Vizinha1 que ela descobriu ter caído em fake news. Desde então, já não acredita em qualquer notícia que aparece pela frente: para tirar suas dúvidas e dar umas risadas, recorre sempre ao projeto do Coletivo Balaio, de Ribeirão das Neves, apresentado a ela por sua sobrinha Rute, uma das jovens participantes. 

Também em uma periferia da Grande BH, outro projeto de combate às fake news pela comunicação popular foi construído pelas juventudes, sob coordenação do Movimento Eu Amo Minha Quebrada: o Na Real Morro do Papagaio2. Ambos surgiram como microprojetos selecionados pela AIC na Lei Aldir Blanc – uma modalidade de apoio que busca descentralizar os recursos concedidos aos Pontos de Cultura através da Lei Aldir Blanc pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais.  

A partir de março deste ano, as iniciativas tomaram forma sobretudo no Instagram e WhatsApp, mas também em outros meios. Um de seus diferenciais é dialogar com necessidade real de informação e orientação dos territórios onde estão: as e os jovens se dedicam a responder dúvidas da comunidade e a transmitir os conteúdos em linguagem adequada ao público local.

No perfil do Na Real, Rodolfo, o Gato da Quebrada, fala sobre a importância de usar máscara e divide o espaço com pílulas em áudio que desmentem fake news e outros conteúdos. O grupo, formado por 9 jovens, com faclitação de Júnia Morais e Julio Fessô, também apostou em podcast e live, além de ultrapassar as fronteiras da internet através da distribuição de panfletos e cartazes na comunidade. Segundo Júnia, trabalhar contra a desinformação era uma ideia do movimento que recebeu o pontapé inicial através do apoio da AIC – e pretende continuar. 

Para Ana Carolina Martins, 23, a experiência de participar do projeto do Morro do Papagaio é agregadora, inclusive porque ela pretende se formar na área da comunicação. “Com ele venho adquirindo conhecimento, aprendizagem e aprimoramento do senso crítico, o que irá me tornar uma pessoa mais informada, cautelosa e analítica. O grupo nos traz uma troca de informação e experiências, e com essas informações obtidas tentamos compartilhar a veracidade do assunto e desmistificar outros. Dessa forma, ajudamos a comunidade com informação verdadeira, clara e precisa”, descreve Ana. 

Memes, reels e outros posts divertidos cumprem a proposta do Já Basta a Vizinha de unir humor e informação para combater as notícias falsas. Além das publicações, a iniciativa também deu origem a uma live e virou podcast. Para Ribeirão das Neves, a importância do projeto tem a ver com combate à desinformação, mas não só. Segundo Tiago Toth, do Coletivo Balaio, “Fomos trabalhando também essa ideia de empoderamento. A gente vem de um processo de destruição da nossa autoestima, começa pela cidade onde a gente vive – ‘ah, é pobre, periférica’. Então a gente tá sempre nesse lugar de muita vergonha”. 

Uma das 5 participantes do projeto, Sthefanny Barbosa, 17, conta que através dele aprendeu a editar imagens, produzir textos e buscar a interação do público. “Você tem que tomar muito cuidado: como você fala com a pessoa, como que você leva aquele conteúdo, o que tem na imagem, tem que ser muito delicado porque a gente tá trabalhando com o público, né? O que a gente tá tentando fazer é engajar essas pessoas pra elas mesmas descobrirem que não é tão difícil pegar uma notícia e investigar ela pra compartilhar direitinho e tudo mais. A gente quer criar esse tipo de curiosidade nas pessoas”, diz a jovem. 

Para potencializar ainda mais o trabalho dos grupos, desenvolvido de forma autônoma, e tecer conexões entre eles, a AIC entrou em campo. Foi promovido um encontro virtual conjunto, com de troca de experiências e uma conversa com Everton Santana, doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas na Universidade Federal da Bahia (UFBA). O pesquisador compartilhou conhecimentos úteis para o combate à desinformação – como os diferentes tipos de fake news e ferramentas para a checagem de notícias -, além de trocar ideia com as e os jovens sobre os desafios do trabalho. 

Nossos microprojetos na Lei Aldir Blanc

Foram 9 as iniciativas sociais e agentes culturais e comunitários que tiveram suas propostas selecionadas como microprojetos da AIC pela Lei Aldir Blanc Minas Gerais, com articulação da rede Periferia Viva. As atividades, desenvolvidas entre março e maio de 2020, trouxeram resultados gratificantes e foram além do esperado, segundo Letícia Lopes, articuladora da AIC que acompanhou os grupos. “Os microprojetos evidenciaram o que já sabíamos: o potencial que existe em diversas iniciativas para desenvolvimento de ações incríveis, mas que acabam não acontecendo por falta de recursos. Foram ações de grande impacto, extremamente criativas e feitas com muita dedicação e vontade de fazer acontecer dos envolvidos”, conta. 

Além do combate às fake news, o fomento à comunicação popular também esteve presente na produção de uma edição especial da Revista Online Diz Aí Comunidade3, no bairro Ribeiro de Abreu. Para potencializar nossa atuação na área da educação, foram realizadas oficinas de arte, musicalização e artesanato para crianças através dos microprojetos Aprendendo brincando, brincando e aprendendo4, e Reforço escolar – Educar para a vida5.  

Na área da cultura, a coletânea Favela Tem Voz – volume 26, organizada pelo projeto 4 Elementos, reuniu artistas da cena do rap e hip hop da Grande BH, enquanto o Versidade – Extremos Poéticos7, construído com o Coletivo Apuama e a Coletiva Manas, promoveu a circulação da poesia periférica por meio de uma coletânea em forma de livro e audiobook. Sob coordenação dos artistas Adriana Santana e Saulo Pico, a Ocupação Carolina Maria de Jesus ganhou uma intervenção artística feita por jovens no microprojeto Carolinas Cores de Nós8. Por fim, potencializamos a visibilidade de artesãs e artesãos populares através da Rede de Artesanato do Vale do Jequitinhonha, com o microprojeto Comunicando em Redes9

Os microprojetos foram realizados com recursos da Lei Aldir Blanc/ SECULT MG – EDITAL nº 02/2020, termo de compromisso SECULT/LAB-FOMENTO nº 23429/2020. Os proponentes dos microprojetos aprovados, na ordem de aparição no texto, são:  

1. Rute Nayara Rodrigues da Silva; 2. Márcio Junio Romualdo; 3. Diogo Santos Ribeiro 4. Jhonatas Santos Rodrigues de Freitas;  5. Deldy Gonçalves dos Anjos; 6. Roberto Raimundo; 7. Leandro Pereira da Silva; 8. Adriana Santana da Silva; 9. João Roberto de Souza Silva.