Patrimônio: palavra de dez letras que faz vibrar o céu da boca e, à primeira vista, pode parecer distante para a maior parte das pessoas. Mas é precisamente por parecer distante que o tema deve estar na pauta do dia: afinal, nada mais próximo de nós do que nossos patrimônios culturais. Eles têm a ver com aquilo que nos constitui como sujeitos em uma comunidade – nossas comidas, jeitos de falar, brincadeiras, festas, músicas e costumes -, e investigá-los é parte importante da construção e valorização de nossas identidades individuais e coletivas. 

Por meio da educação patrimonial, criamos oportunidades de reflexão e estranhamento a respeito de quem se é, das histórias e memórias de um território. Com isso, é possível desenvolver uma visão crítica sobre aquela realidade, abrindo caminhos para a salvaguarda das referências culturais que realmente importam para a comunidade, muitas vezes na contramão de apagamentos que estão socialmente colocados. Esse processo investigativo tem lugar em espaços escolares, mas também em diversos outros territórios educativos. 

Na AIC, a educação para o patrimônio vem se consolidando como um dos nossos campos de atuação na área da cultura. É ela que orienta iniciativas como o Estação de Memórias, o Conexão Comunidade e o Programa de Educomunicação e Educação Patrimonial de Matozinhos (MG). Cada qual com sua particularidade, todos esses projetos partem das histórias pessoais para falar sobre a memória coletiva. Vem conhecer os aprendizados que colhemos até aqui! 

Por onde começar a conversa sobre educação para o patrimônio? 

Em nossa caminhada, adotamos uma perspectiva emancipatória, que aposta na autonomia e no protagonismo dos sujeitos e se alicerça em suas experiências. Dessa forma, entendemos que a conversa sobre educação para o patrimônio deve partir da relação afetiva das pessoas com aquele território em direção a um processo de investigação identitária, e não se reduzir à mera apresentação dos patrimônios oficialmente reconhecidos. Ainda que se diga sobre acontecimentos passados e bens históricos, é possível problematizá-los e conectá-los à vivência das pessoas da comunidade: o que esse patrimônio diz sobre nosso passado? E sobre quem somos hoje e queremos ser no futuro?   

Isso significa que os saberes não devem ser hierarquizados, como aconteceu por muito tempo e acontece ainda hoje quando o assunto é patrimônio. As narrativas levadas pelas e pelos educadores devem ser costuradas àquelas que surgem no levantamento colaborativo, sem sobrepô-las e sempre com uma abertura ao dissenso. Afinal, buscar uma relação menos verticalizada entre os saberes significa também confrontar pontos de vista discordantes, mas sem a pretensão de apaziguá-los ou conciliá-los, em uma reprodução da lógica de apagamentos. Pelo contrário: o registro da construção, do embate e do convívio entre esses diferentes pontos de vista também é parte de um percurso em educação para o patrimônio que se pretenda emancipatório. 

Educação patrimonial em sala de aula 

Assim como tantos outros assuntos, a discussão sobre patrimônio cultural encontra território fértil na escola. Mas por que tratar desse tema em sala de aula? O guia Se esse patrimônio fosse meu, que reúne relatos de experiências de educadores colhidos pelo programa Conexão Comunidade, aponta respostas possíveis para essa pergunta:  

“Não dá para mensurar a potência de ter espaço e tempo de qualidade para pensar sobre nós mesmos, onde vivemos e de onde viemos. Uma educação patrimonial fundamentada nas experiências relacionais dos alunos com seus lugares e com as comunidades que os cercam é de suma importância para que eles tenham o direito de se conhecerem e se reconhecerem ou não nas representações que já estão colocadas socialmente. É igualmente relevante para que eles tenham o direito de conhecer sua história por suas próprias buscas, de serem capazes de narrá-la, de falarem sobre si sem medo e de ressignificarem as representações já colocadas.” 

Além disso, a discussão sobre patrimônio possibilita encontros com a diferença, essenciais à trajetória educativa. No processo de investigação sobre si, estudantes se confrontam com lugares diversos de raça, gênero, sexualidade, contextos familiares e territórios. É, sem dúvidas, uma oportunidade potente para acolher a diversidade e conviver com ela, ao invés de esmagá-la. 

Por fim, é preciso destacar que tratar de patrimônio no ambiente escolar não é tarefa restrita a uma única disciplina, mas um gesto que borra as fronteiras entre as caixinhas curriculares, privilegiando a transversalidade dos conhecimentos. Não à toa, professoras e professores que acompanham nosso trabalho identificam oportunidades de abordar memória, identidade e patrimônio nas mais diversas matérias escolares que lecionam – de artes à matemática, de história à educação física.  

Comunicação e educação patrimonial 

Se falar sobre patrimônio é falar sobre a construção e reconstrução de narrativas, não é possível deixar a comunicação de lado em um projeto voltado à cultura e à educação patrimonial.  É ela que, por meio de linguagens diversas, possibilita aos sujeitos a enunciação de suas próprias narrativas a respeito de si e de seu entorno, permitindo a resistência diante de violências simbólicas. 

A produção comunicacional também é uma faísca potente para chegar à discussão sobre temas tão complexos quanto identidade cultural, na metodologia que chamamos de mídia-processo. Ao longo da criação em uma linguagem midiática, as questões-problema vão sendo elaboradas numa reflexão misturada ao fazer, seja no trabalho individual ou na troca com os pares. Em outras palavras, é no ato de criar a materialidade de um produto de comunicação que a elaboração sobre o assunto abordado muitas vezes acontece.  

Por fim, é também através da comunicação que as narrativas construídas pelos sujeitos num percurso de educação patrimonial são postas a circular na comunidade, puxando memórias de outras pessoas e fomentando, assim, o processo de investigação colaborativa sobre a história local e a tessitura de laços de identificação e pertencimento. Daí a importância de compartilhar com o coletivo os registros sobre patrimônio feitos ao longo de um projeto – por exemplo, através de mostras com produções das turmas escolares ou mesmo em espaços culturais. 

Quer saber mais sobre nossa perspectiva em educação para o patrimônio? 

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